Segurança e saúde: checklist cirúrgico pode reduzir complicações em até 36%

Da preparação à recuperação, entenda como protocolos de segurança diminuem riscos e melhoram resultados cirúrgicos

Três horas antes do horário marcado para a cirurgia, uma paciente chega ao hospital. A equipe verifica sinais vitais, confirma o tempo de jejum e coloca a pulseira de identificação. Ela já retirou cílios postiços, lentes de contato e esmalte das unhas. São procedimentos que parecem simples, mas fazem parte de um protocolo que reduz em 50% as taxas de infecção cirúrgica quando aplicado corretamente.

Pesquisadores registraram queda de 36% nas complicações gerais, 47% na mortalidade e 25% na necessidade de reoperações após a adoção da “Lista de Verificação de Segurança Cirúrgica”, desenvolvida pela Organização Mundial da Saúde (OMS). O artigo detalhando o estudo foi publicado no The New England Journal of Medicine.

Outra pesquisa, realizada no Brasil com 172 pacientes, mostra que quase metade (48,2%) apresentou níveis excessivos de estresse no pré-operatório. O estudo foi divulgado no periódico Acta Paulista de Enfermagem.

Também no país, os dados mais recentes apontam um recorde: mais de 13,6 milhões de cirurgias eletivas foram realizadas via o Sistema Único de Saúde (SUS) em 2024. O número é o maior já aferido na história do serviço público e reflete um crescimento de 42% em relação ao ano de 2022. Entre as especialidades com maior demanda estão procedimentos que exigem médico ortopedista.

Ansiedade amplifica percepção de dor nas primeiras 48 horas

Medo da morte, dor e perda de funcionalidade dominam as preocupações pré-operatórias. Segundo a pesquisa publicada na Acta Paulista de Enfermagem, o medo exerce efeito direto sobre a intensidade da dor pós-operatória, enquanto a ansiedade atua como “mediadora”. 

Os pesquisadores identificaram os impactos, sobretudo, nas primeiras 48 horas após a cirurgia. A ansiedade amplia a percepção da dor e eleva o consumo de analgésicos, o que pode prolongar o tempo de internação e dificultar a recuperação.

Exercícios de respiração profunda e diafragmática reduzem níveis de cortisol e podem ajudar nesses momentos. A meditação guiada e a visualização positiva são outras indicações para aumentar a resiliência emocional. 

Preparação começa até 90 dias antes do procedimento

O pré-operatório divide-se em duas fases: a mediata e a imediata. A primeira vai da indicação cirúrgica até a véspera e inclui exames diagnósticos, avaliação cardiológica e consulta pré-anestésica. 

Em casos que exigem avaliação múltipla, o ideal é que o paciente encontre um cirurgião geral para coordenar a preparação, especialmente quando há comorbidades. É recomendável que os exames não sejam feitos mais de 90 dias antes da cirurgia.

O uso de cigarros precisa ser interrompido entre 7 e 15 dias antes da operação. O uso de drogas ilícitas até uma semana antes da cirurgia também aumenta a possibilidade de interações perigosas com a anestesia.

A segunda fase, a imediata, compreende as 24 horas anteriores à cirurgia. O jejum segue um protocolo rígido: oito horas para alimentos gordurosos, seis horas para sólidos e leite, duas horas para água. A internação hospitalar ocorre cerca de três horas antes do horário previsto para a operação. A equipe de enfermagem realiza avaliação inicial, verifica sinais vitais, confirma tempo de jejum, checa alergias e coloca a pulseira de identificação.

Por que é preciso tirar cílios postiços, unhas artificiais, aplique, piercing e esmalte antes da cirurgia?

Cílios postiços, unhas artificiais e apliques de cabelo devem ser retirados antes da internação. Como são feitos de materiais sintéticos, eles são inflamáveis ou condutores de calor, aumentando o risco de queimaduras durante o procedimento. 

A remoção inclui próteses dentárias, lentes de contato, óculos, aparelhos auditivos, brincos, piercings, grampos de cabelo e perucas. Esmaltes, principalmente de cores mais escuras, interferem na leitura da oxigenação sanguínea realizada pelo oxímetro. Também é indicado ir sem nenhuma maquiagem.

Lista da OMS tem quatro pilares de checagem

A lista da OMS é estruturada em quatro pilares: prevenção de infecção, anestesia segura, eficiência das equipes e mensuração da assistência cirúrgica. 

A primeira verificação ocorre antes da anestesia. A equipe confirma identidade, local e consentimento do paciente, testa o oxímetro, checa alergias e avalia risco de perda de via aérea ou sangramento. A profilaxia antimicrobiana deve ser administrada nos 60 minutos anteriores à incisão.

A segunda etapa, chamada time out ou pausa cirúrgica, acontece antes da incisão de pele. O recomendado é que todos os membros da equipe se apresentem pelo nome e função. Confirma-se novamente o paciente, o procedimento e o local da cirurgia. São revisados a administração de antibióticos, a disponibilidade de exames de imagem e os eventos críticos que podem acontecer durante o procedimento.

A terceira etapa ocorre antes do paciente deixar a sala, após o procedimento. Registra-se verbalmente qual operação foi realizada. São conferidos a contagem de compressas, os instrumentos cirúrgicos e as agulhas e, se necessário, identificam o material enviado para análise patológica. A equipe revisa, ainda, se há preocupações sobre recuperação e cuidados pós-operatórios.

Mortalidade cirúrgica varia até 25 vezes entre países

Em países considerados desenvolvidos, a taxa de mortalidade em cirurgias de grande porte fica entre 0,4% e 0,8%, segundo a OMS. Nos países em desenvolvimento, essa taxa sobe para entre 5% e 10%. 

O risco de morte por anestesia geral caiu de 1 em 5 mil para 1 em 200 mil nos países desenvolvidos nas últimas três décadas, uma melhora de 40 vezes. Nos países em desenvolvimento, a taxa de mortalidade associada à anestesia permanece entre cem e mil  vezes mais alta.

A OMS estabeleceu cinco indicadores para vigilância cirúrgica básica: número de salas de operação, número de cirurgias realizadas, número de cirurgiões e anestesistas habilitados, mortes nas primeiras 24 horas e mortes de pacientes internados no pós-operatório. Os dois últimos permitem calcular a taxa de mortalidade no dia da cirurgia e a taxa de mortalidade em pacientes internados após a cirurgia.

O planejamento do manejo da dor deve ocorrer no pré-operatório. No pós, a Sociedade Brasileira de Anestesiologia define como responsabilidade central do anestesiologista prevenir e estabelecer a estratégia para controle da dor. O paciente deve comunicar qualquer incômodo imediatamente, pois isso facilita a retomada das atividades normais.

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